Resenha: Objetos Cortantes, Gillian Flynn

livro gillian flynn

Autor: Gillian Flynn          Editora: Rocco/Intrínseca

Páginas: 299                Ano:  2008/2015

Sinopse:

Na própria carne, um romance policial com nuanças psicológicas recebido com entusiasmo pelo público e pela crítica dos EUA que prende o leitor do início ao fim. Na trama, a jornalista Camille Preaker é designada para cobrir o assassinato de duas pré-adolescentes na pequena cidade onde cresceu, e acaba reencontrando, após anos distante, a mãe neurótica e a meia-irmã que mal conhece. As poucas pistas da polícia a empurram para uma investigação paralela sobre a ação do suposto serial killer, que avança sobre os mistérios de Wind Gap, revelando segredos terríveis sobre a cidade, sua família e sobre sua vida.

 “Eu me corto, sabe? Também retalho, fatio, gravo, espeto…Sou um caso bem especial. Tenho uma razão. A minha pele, sabe, ela grita.”

Camille Preaker, editora de polícia do jornal Daily Post em Chicago, carrega consigo o vício pela bebida, um passado doloroso e muitas marcas pelo corpo. Literalmente. Marcas autoinflingidas em que registra seus tão confusos sentimentos, suas decepções, suas descobertas. Cicatrizes que “falam” por si só e marcam cada sentimento, cada momento de sua vida durante a adolescência: “cozinhar”, “bonequinha”, “perversa”, “calcinha”, “virgem”, “desaparecer”.

Numa pequena comunidade ao Sul de Missouri, Wind Gap, sua cidade natal, que há tanto ela deixou pra trás, junto de seu passado marcado pela morte de sua irmã caçula, um suposto serial killer que tem preferência por meninas começa a atacar e ela se vê obrigada a cobrir profissionalmente a investigação.

Apesar do caso em si já não ser agradável, o que mais a preocupa e aumenta sua ansiedade é o fato de retomar um pouco do convívio com sua família: sua mãe Adora, com sua personalidade fria, seu padrasto Alan, que parece viver alheio a realidade de sua própria casa, e sua meia-irmã, Amma, que carrega uma personalidade dupla: a menininha da família e a adolescente maliciosa, fria.

Camille precisará de coragem e muito autocontrole tanto para conseguir enfrentar a população assustada e arredia de Wind Gap em busca de algo que possa lhe ajudar a desvendar o perfil do tão temido assassino e principalmente de muito controle para lidar com seu anseio por automutilação.

Suas cicatrizes, antigas e dolorosas, tanto na carne quanto em sua alma, a levam de volta a seu passado, contam histórias, mas também poderão trazer as respostas para os dias de hoje.

“Cada pessoa tem sua própria versão de uma lembrança.”

Na Própria Carne foi o romance de estreia da autora Gillian Flynn, a mesma tão conhecida por Garota Exemplar, lançado pela editora Rocco em 2008 e relançado pela Intrínseca como Objetos Cortantes, em 2015. Sim, é o mesmo livro com resumos na contracapa diferentes…

No decorrer da leitura percebe-se o quanto a autora evoluiu se comparado ao Garota Exemplar, mas assim como Garota Exemplar (e podem começar as críticas em 1, 2…), a narrativa não me convenceu…Esperava um pouco de ação, uma história que me prendesse um pouco mais.

Em todos os resumos que li o livro é colocado com uma “narrativa tensa e cheia de reviravoltas”, um “livro viciante”, mas na verdade, e deixo bem claro, na minha opinião, cria-se uma expectativa que não é correspondida ao longo da leitura. Em muitos trechos o texto fica inclusive monótono, repetitivo.

Por sua vez, consegue-se sentir as emoções angustiantes da protagonista, sua total consciência de seus problemas e sua incapacidade de lidar com eles.

Ou seja, não é que o livro seja ruim, apenas não é a meu ver um livro que te prende da mesma forma do começo ao fim. Tem reviravoltas? Algumas. Mas para um bom leitor de romances policiais, ao longo da história fica fácil perceber exatamente quem são os vilões e os mocinhos, usando esse clichê, e como a trama se desenvolverá.

A protagonista Camille é bem intensa, transmite emoções fortes, angustiantes e consegue passar toda sua instabilidade emocional para nós leitores.

Na verdade, todos os personagens são bem construídos, cada um com suas características peculiares, suas personalidades e seus anseios.

“Uso este vestidinho por causa de Adora. Quando estou em casa, sou a bonequinha dela. 
– E quando não está?
– Sou outras coisas. Você é Camille, minha meia-irmã. A primeira filha de Adora, antes de Marian. Você é pré e eu sou pós.”

O enredo é interessante, aborda questões como relacionamento familiar, automutilação, relações conturbadas entre os membros de uma pequena comunidade, assassinatos.

Mas apesar disso tudo a narrativa não evolui. Ao menos pra mim.

Talvez estivesse com expectativas demais, esperando um romance com mais ação, mais emoção, baseado em tudo que li, mas se quer saber, leia!

Pode ser empolgante pra você!

Até a próxima!

assinatura camila

Resenha: Um Grito na Noite, Mary Higgins Clark

um grito na noite

Autor: Mary Higgins Clark            Editora: Record Páginas: 349                                     Ano: 2010

Classificação 4/5 ⭐️ 🚍

Á venda l Submarino l Americanas

Sinopse:

Jenny MacPartland, divorciada, duas filhas pequenas, vive num minúsculo apartamento em Nova York, sobrevivendo com seus poucos recursos, trabalhando de maneira esforçada, realizando sempre o seu melhor numa galeria de artes em Manhattan. Tem uma vida simples mas feliz.

Erich Krueger, pintor de fama internacional, solteiro, rico, criador de gado no meio-oeste, em Minnesota, sabe ser encantador. Sempre teve tudo o que desejou.

O caminho dos dois se cruzam quando Erich expõe na galeria em que Jenny trabalha.

Ela conhece sua obra, ele se apaixona por ela.

Sua principal obra exposta, Recordações de Caroline ao mesmo tempo a atrai e lhe dá arrepios por lhe parecer familiar. Caroline era mãe de Erich, e ele era totalmente devotado a ela. Ela tem alguma semelhança com Caroline. Após um breve, porém intenso namoro o conto de fadas se torna real. Eles se casam, se mudam para Minnesota e sua vida de rainha com tudo a sua disposição e a disposição de suas filhas começa. Estaria ela vivendo um sonho?  Mas logo a felicidade que esteve a seu lado nos últimos meses desaparece com a mesma rapidez com que a arrebatou. Incidentes e acidentes alterarão sua rotina, seu casamento, sua família e sua própria vida. Jenny fez a escolha certa ou nem se deu conta de que na verdade nem pode escolher?

“ (…) Case-se comigo, Jenny. Logo.
Uma semana antes , ela nem o conhecia. Sentiu o calor das mãos dele, fitou aqueles olhos interrogativos e percebeu que os dela também refletiam o mesmo amor ardente. E sabia, sem qualquer sombra de dúvida qual seria sua resposta.

 A primeira vista, um amor arrebatador. Um homem rico e talentoso se apaixona por ela, demonstra tanto amor e carinho por suas filhas, suprindo-lhe anos de ausência paterna que elas mal podem esperar para estar com ele novamente. A trata com tanto respeito e reverência que ela sente uma rainha. E garante que tudo o que ele mais quer é vê-la feliz. Ao lado dele, é lógico.

Pra algumas pessoas, principalmente as que já passaram por decepções nas relações amorosas, esse pode ser o início de um sonho, o “finalmente encontrei minha alma gêmea”. Para outros o pensamento que lhes vem a mente é: “- Deve ter alguma coisa errada por trás de tanta perfeição”.

Para Jenny foi a primeira opção. Pelo menos no início. Apesar de sempre ter a sensação de que algo estranho estava ao seu redor, ela optou por viver um sonho. O seu sonho de uma família feliz, sem preocupações financeiras, sem pressa.

Mal podia acreditar no quanto aquele homem era bom pra ela e para suas filhas.

E por isso demorou a perceber os sinais que desde o início ele deu sobre sua personalidade dominadora, controladora.

“Os olhos dele permaneceram fixos no rosto dela.
  • Achei que você ia querer sua camisola , querida – respondeu. – Olhe aqui.
Ele segurava uma camisola azul-clara de cetim com um grande decote em V na frente e nas costas.
  • Erich, eu tenho uma camisola nova. Você comprou essa pra mim?
  • Não – respondeu ele. – Era da Caroline. – Passou a língua nervosamente sobre os lábios. Sorria de forma estranha. (…) – Jenny, use esta camisola hoje; faça isso por mim.
(…) Por alguns minutos, Jenny manteve  o olhar fixo na porta do banheiro, sem saber o que fazer. “Não quero usar a camisola de uma mulher morta”, protestou em silêncio.”

O livro começa com um dos capítulos finais, isso mesmo, o que deixa bem claro quem é bom e quem é mau.

Isso pra muitos pode ser um balde de água fria, uma vez que grande parte do mistério em livros policiais se faz ao redor de suposições sobre em quem você deve ou não confiar. Mas acredite, saber quem é o bandido ou o mocinho nesta obra é o fator menos relevante.

Li algumas críticas que tratam o livro como tendo um início morno até que se desenvolva algum tipo de ação. Mas, uma vez que já li o livro 3 vezes (rsrs…fazer o que?) estou convicta de que o que o torna tão interessante é o terror psicológico vivido pela personagem principal e não a ação que se desenvolve aos poucos. Sim , Jenny demora a perceber o quanto está acuada, o quanto vem sendo abusada, mas ao se dar conta de que não tem nem mesmo o controle sobre suas filhas, começa a agir e aquela sensação estranha que a acompanhava desde a primeira vez que viu as obras de seu atual esposo funciona como um catalisador. É esse medo que traz de volta as rédeas de sua vida.

Você notará desde os primeiros capítulos que é nos mínimos detalhes que a personalidade dominadora de Erich se manifesta. Ele é cuidadoso demais, protetor demais, e o que por alguns momentos pode ser encarado como zelo e carinho nada mais é do que a necessidade de se manter sempre no controle da situação.

Um perfeccionista, no sentido mais doentio. Um opressor que se aproveita de atividades cotidianas para ganhar espaço e cada vez mais anular a personalidade de sua parceira.

Que age friamente manipulando suas próprias enteadas, de 3 e 2 anos, até que estas passem a trata-lo com prioridade, como seu “único papai” e que passem a não mais respeitar sua mãe. O romance intriga por nos fazer pensar em quantas relações doentias se desenvolvem de maneira aparentemente ingênua e casual. Um sonho se tornando um pesadelo.

Mary Higgins Clark é a vovó que eu gostaria de ter (apesar de adorar as minhas!)!

Completará 88 anos em dezembro e continua escrevendo livros de mistério super atuais. Seu primeiro livro Onde estão as crianças? se tornou um best-seller em 1975. Recebeu inúmeros prêmios e honrarias e foi presidente da Associação Mistery Writers of America, chamada de a Rainha do Suspense. Ela trabalha bastante o lado psicológico dos personagens e suas relações, por isso gosto sempre de reler as obras algum tempo depois para absorver alguns detalhes que em uma primeira leitura podem passar despercebidos.

E os livros podem ser lidos fora de ordem, uma vez que as histórias tem começo, meio e fim. Com certeza ela é leitura obrigatória pra quem gosta desse gênero, é lógico que essa a opinião de alguém que é viciada nessa categoria!!!

Boa leitura!

assinatura camila

Resenha: O Cirurgião, Tess Gerritsen

O-Cirurgiao

Autora: Tess Gerritsen                Editora: Record Páginas: 379                      Ano: 2001

Classificação 5/5 ⭐️ 🚍

Á venda l Submarino l Americanas

Sinopse:

Boston, Massachusetts. Verão com dias úmidos e noites abafadas.

Nessas madrugadas quentes, muitas pessoas deixam suas janelas abertas a espera de uma brisa noturna. O que elas não esperam é que alguém as esteja espreitando. Mulheres, que moram sozinhas e levam suas vidas corriqueiras, dormem tranquilas em suas casas, mas então o mau as observa e as escolhe. Com a determinação de um caçador ele as domina em sua própria cama, amarra seus membros e dorso, tapa suas bocas com fita adesiva, e o mais importante, as mantém acordadas, bem despertas, para que possam acompanhar todo o horror a que se serão submetidas nas intermináveis horas que se seguem. Com a destreza e firmeza de um cirurgião, abre uma incisão em seu ventre e lhes arranca o que as caracterizam como mulher: seu útero. E em meio ao terror absoluto, ainda vivas, veem seu agressor transformar seu abdômen numa poça de sangue, para que logo após, agindo com precisão, lhes aplica um golpe de misericórdia cortando suas gargantas, limpando toda cena do crime e dobrando suas camisolas metodicamente.

“Para um caçador, não existe nada mais excitante do que o cheiro de uma presa ferida”.

Dra. Catherine Cordell, médica cirurgiã de um Pronto Socorro sabe exatamente o que essas mulheres passaram. Ela sobreviveu a um ataque brutal da mesma natureza há 2 anos, em Savannah, mas conseguiu matar seu agressor.

Guarda essa triste parte de sua história para si e aproveita seu dia a dia tumultuado e sua grande competência como cirurgiã para camuflar o medo que a atormenta. Quando chega em casa, tenta não permitir que o mal a encontre novamente, e em meio a alarmes e sistemas de segurança, encontra consolo em grupos de ajuda na internet. Mas isso não a protege de seus pensamentos.

Ela não é mais a mesma desde seu trauma, nunca será.

“ Por mais que você tente manter a ordem em sua vida, por mais que você tente se guardar contra erros, contra imperfeiçoes, sempre há alguma mancha, alguma falha, espreitando onde não pode ser vista. Aguardando para surpreender você.”

Casos de mulheres violentadas e brutalmente assassinadas começam a aparecer neste verão e apesar do assassino de Cordell ter sido morto, as semelhanças são inegáveis. Detalhes nunca antes apresentados na mídia se tornam recorrentes nas cenas analisadas. Tudo remete ao caso da Dra Cordell. Seria um imitador? Será que ele veio reclamar o que é dele e lhe foi negado há dois anos?

“ Por mais cuidadosas que sejamos, o mal sabe onde nós moramos, pensou. Ele sabe como nos encontrar.”

A detetive de homicídios Jane Rizzoli, encarregada do caso, faz de tudo para que sua feminilidade não transpareça, age de maneira bruta, tentando parecer mais durona do que o restante de sua equipe, pois precisa provar aos muitos homens de seu departamento que é capaz. Ela trabalhará juntamente com o detetive Thomas Moore, um viúvo, calmo e observador e que em nada se parece com ela.

Eles precisam deixar suas diferenças em segundo plano e ao menos se aturarem para que o trabalho em equipe seja efetivo e para que tenham sucesso na investigação. A confiança entre eles precisa se estabelecer antes que mais mulheres tenham suas vidas ceifadas.

Tess Gerritsen, chinesa, radicada nos EUA, médica patologista de formação, iniciou sua carreira como escritora após o nascimento de seus filhos, pois precisava passar mais tempo com eles e escrever lhe permitia que ficasse mais em casa (que sonho…)! Desde o início optou pelos thrillers médicos, uma vez que pela sua formação pode descrever com precisão os procedimentos e a anatomia humana.

Nem preciso dizer o quanto gosto de thrillers médicos!!! Adoro as descrições e os detalhes quando bem apresentados, e Tess faz isso de maneira única e primorosa e mesmo aos que não tem familiaridade com termos e rotinas médicas, ela descreve os procedimentos de forma clara e simples. Ela une seus conhecimentos médicos a investigação forense e o resultado é fascinante.

Mas, se você treme só de ouvir sobre sangue ou necropsias, essa leitura pode não ser tão agradável assim! rs

O Cirurgião é o primeiro livro do que ficou conhecido como Série Rizzoli e Isles. São 11 livros até o momento, sendo 10 publicados no Brasil. O personagem da detetive Jane se desenvolve e no decorrer dos livros se estabelece cada vez mais forte. Dra Maura Isles, é a médica legista que surge em seu próximo livro, O aprendiz, e acompanha Jane em suas investigações.

Devido ao sucesso dos livros, a TNT resolveu gravar uma série televisiva que leva o nome Rizzoli & Isles e que teve os direitos de exibição comprados pelo SBT e Space, mas que em nenhum momento se parece com a dupla apresentada nos livros! Podem me julgar agora, mas a série de TV apresenta as personagens totalmente estereotipadas, surgem como lindas detetives, sempre arrumadas, barbies contra o crime (será que é clichê??), grandes amigas que trabalham juntas e se completam apesar de serem opostas em tudo. Desculpa, mas nada tem a ver com as personagens tão bem delineadas na obra.

Apesar da minha desaprovação, que não foi levada em consideração pelos produtores (!), a série teve seus direitos de exibição renovados e continua a fazer sucesso, principalmente nos EUA. Leia um dos livros que a dupla trabalha junto e tire sua conclusão…posso estar sendo chata demais! rsrs

Tess escreve de maneira detalhada, com personagens bem trabalhados, aborda questões delicadas como estupro e preconceito em relação as mulheres. Constrói um suspense envolvente, que ao mesmo tempo te aproxima do horror vivido pelas vítimas e faz com que você se sinta próxima ao assassino. É o tipo de leitura que flui, cadenciada e intrigante e faz com que você queira terminá-la em um final de semana.

Apesar de ser uma série, os livros tem começo, meio e fim o que permite que você não siga a ordem de lançamento e não prejudique seu entendimento quanto aos personagens e a trama. Vale a leitura com certeza!

Até a próxima!

assinatura camila

Resenha: Viva Para Contar, Lisa Gardner

viva para contar

Autor: Lisa Gardner     Editora: Novo Conceito Ano: 2012       Páginas: 476

Classificação 4/5 ⭐️ 🚍

Á venda l Submarino l Americanas 

Sinopse:

Em uma noite quente de verão, em um bairro de classe média de Boston, um crime foi cometido: quatro membros da mesma família foram brutalmente assassinados. O pai – e possível suspeito – agora está internado na UTI de um hospital, entre a vida e a morte. Seria um caso de assassinato seguido por tentativa de suicídio? Ou algo pior? D.D. Warren, investigadora veterana do departamento de polícia, tem certeza de uma coisa: há mais elementos neste caso do que indica o exame preliminar. Danielle Burton é uma sobrevivente, uma enfermeira dedicada cujo propósito na vida é ajudar crianças internadas na ala psiquiátrica de um hospital. Mas ela ainda é assombrada por uma tragédia familiar que destruiu sua vida no passado. Quase 25 anos depois do ocorrido, quando D.D. Warren e seu parceiro aparecem no hospital, Danielle imediatamente percebe: vai acontecer tudo de novo. Victoria Oliver, uma dedicada mãe de família, tem dificuldades para lembrar exatamente o que é ter uma vida normal. Mas fará qualquer coisa para garantir que seu filho consiga ter uma infância tranquila. Ela o amará, independentemente do que aconteça. Irá protege-lo e lhe dar carinho. Mesmo que a ameaça venha de dentro da sua própria casa.

“As vezes, os crimes mais devastadores são aqueles que acontecem mais perto de nós”.

Meu nome é Camila, tenho 32 anos. Sou Enfermeira especialista em Emergência que temporariamente é dona de casa com satisfação!

Sou apaixonada por livros e livrarias desde a infância, e minha verdadeira paixão por temas policiais veio pelos livros da Agatha Christie, que foram apresentados por meu pai na minha adolescência, sendo o primeiro que eu li, Noite das Bruxas, aquele que confirmou meu interesse por investigação, suspense e assassinato.

Sei que isso pode soar meio tétrico, mas esses assuntos realmente me fascinam! Pra ser sincera já tentei ler outros assuntos – dramas, ficção científica, biografias – e com exceção dos 7 livros da série Harry Potter que eu amo de paixão (e o desejo de passar minha aposentadoria em Hogwarts…) e das dezenas de livros de culinária que eu tenho (sou viciada em receitas!) temas policiais são meus prediletos…na verdade são os únicos pelos quais eu realmente me interesso, leio e releio sempre.

Nessa primeira resenha como colaboradora do blog, resolvi escrever sobre o livro Viva para Contar,  que trata de investigação e assassinato e de um assunto tabu na sociedade: psicopatia infantil.

O tema é instigante. Confesso que em vários capítulos fiquei tão ansiosa que após terminar a leitura alguns trechos teimavam em martelar minha cabeça, pensando na angustiante vivência dos personagens.

Esse foi o 13º livro da autora de best-seller do The New York Times Lisa Gardner. É um suspense envolvente. Se baseia em três histórias que correm em paralelo mas que apresentam elos de ligação: crianças problemáticas e sobreviventes. São personagens que tiveram suas vidas marcadas por traumas, sobreviveram a crimes e torturas, físicas ou psicológicas, ou sofrem com transtornos psiquiátricos.

Danielle

A história que serve de base para a narrativa é protagonizada por Danielle, uma enfermeira da ala de psiquiatria infantil que tem mais do que histórias de corredor pra contar. Ela é uma sobrevivente. Carrega culpa e sofrimento por uma tragédia familiar ocorrida há 25 anos.

Danielle passa mais tempo no hospital do que em sua própria casa, uma maneira de fugir de sua própria realidade, de seus próprios pensamentos.

 “- Meu pai matou a família inteira, exceto a mim. Será que aquilo significava que me amava mais do que aos outros, ou me odiava mais do que os outros?
– O que você acha? – era o que o dr. Frank sempre respondia.
– Acho que essa é a história da minha vida.”

 Sua vida se resume em trabalhar em excesso, dormir pouco, beber demais, se alimentar de menos e contar todos os dias que faltam para o aniversário de sua tragédia pessoal. E sentir culpa.

Sobreviver, quando todos que você ama se foram, traz culpa. Não ter sido capaz de proteger sua família, traz culpa. Lidar com crianças com as quais você não é capaz de manter o controle, traz culpa

E assim ela vai sobrevivendo e lutando contra seus fantasmas. Porém nem sempre você pode viver a história da sua vida como você sempre desejou.

 “Mas me levanto a cada manhã. E, a cada noite, eu ainda faço a mesma promessa. Viverei com mais luz no coração. Vou continuar a trabalhar com crianças doentes. E vou me apaixonar por um homem realmente bom. Eu sou a única sobrevivente, e sobrevivi para contar esta história.”

D.D. Warren

D.D. Warren é sargento, investigadora de polícia em Boston, loira, bonita, com quase 40 anos, “com um apetite de lutador de sumô, mas o corpo de uma supermodelo”. Adora o estresse, dorme pouco, namora menos ainda, passa dias seguidos no departamento de polícia envolvida em desvendar um mesmo caso. Mas sente um prazer absoluto quando um crime é solucionado e consegue desvendar toda a trama. Ela até se diverte com isso.

E em muitos trechos ela quebra um pouco o clima tenso que a narrativa impõe. Ela tem um humor peculiar, um tanto sarcástico.

Está num jantar quase romântico quando é chamada para visitar uma cena de crime no mínimo assustadora: família de classe média alta, assassinada dentro de sua própria casa, na hora do jantar, cada um com um modus operandi. Todos com exceção do pai, que sobreviveu e passa por uma cirurgia após um tiro na cabeça. Tentativa de suicídio? Talvez. E o elo vem quando D.D. Warren é informada que um dos filhos do casal sofria de psicopatia e esteve internado sob os cuidados da enfermeira Danielle. Dias após esse crime, outro acontece. Outra família, também em Boston, é assassinada em sua casa. Porém é uma família de classe baixa, onde o pai estava envolvido no tráfico de drogas. Mas todos foram mortos de maneiras distintas, não seguindo um padrão, que é o que se espera em casos de assassinos seriais.

Será que os dois casos estão relacionados? Ou são tristes histórias de famílias que foram destruídas por assassino ocasional, apenas coincidências?

Durante a busca por respostas, D.D. se vê cada vez mais envolvida com um membro de sua equipe e não vê a hora de solucionar os dois casos e iniciar qualquer tipo de relacionamento que não seja profissional e não envolva crimes.

“(…) Fechamos o caso, alguma emissora de TV produz um documentário a respeito, e finalmente consigo fazer sexo. D.D. se interrompeu. Provavelmente não deveria ter dito aquela última parte em voz alta.”

Victoria

Victoria é uma mãe que ama seus filhos mais do que a si mesma. Mesmo que isso venha a lhe custar a própria vida.

Ela é mãe de Evan, um garotinho que passa a maior parte dos seus dias a base de sedativos, intercalando períodos de brincadeiras com períodos de fúria e descontrole. Ele está na segurança de sua casa.

Mas será que Victoria está segura?

“Seguro sua mão, que agora está relaxada, não mais ferindo nem destruindo. Imagino se esta será a noite em que finalmente vai me matar. Este é Evan, meu filho. Ele tem 8 anos.”

Ela também tem uma filha e um ex-marido, os quais abandonou. Tudo por Evan.

Mas ela precisa agir assim. Ela também é uma sobrevivente.

Seu filho é uma criança com transtorno psiquiátrico, que antes dos 5 anos passou por dezenas de especialistas, recebeu inúmeros diagnósticos, teve várias babás, deixou de frequentar o jardim de infância por ser uma ameaça para colegas e professores. Passou por terapias e teve indicações de internações mas que por total risco e instinto de proteção de sua mãe é mantido dentro de casa…não que isso garanta a segurança dos dois.

Esses trechos narrados por Victoria são com toda certeza meus prediletos!

Eles trazem o dia a dia de uma mãe que sabe dos graves problemas do filho mas que opta em abdicar de sua própria vida em prol da dele. Que vive, dorme e acorda com medo. Que aprendeu a dormir o mínimo necessário para não enlouquecer, que tranca os armários com cadeados e vive sempre alerta.

Tem trechos que chegam a dar medo, são relatos detalhados do que é conviver com um psicopata. Mesmo que ele tenha apenas 8 anos. Mesmo que você o ame.

 “Sempre pensei que o momento chegaria no meio da noite. (…) Eu cairia no chão e meu filho estaria sobre mim, com a boca espumando.”
 “- Ele disse que foi o diabo que o mandou mata-la. E disse que era melhor que a ambulância viesse depressa, porque ele ainda não havia terminado.”

Se o livro aborda de maneira fidedigna os casos de psicopatia infantil? Sinceramente não sei, tem certos exageros, pode romancear demais. Que trata de crimes que podem ocorrer em nosso meio? Com certeza.

Sei que é envolvente e mesmo com suas 476 páginas prendeu minha atenção e me trouxe várias vezes a perturbadora sensação de que essas coisas acontecem, independente de como você espera, que crimes ocorrem mesmo dentro de casa, quando você se sente seguro, com as pessoas que você ama. E principalmente, que nem sempre sobreviver é a melhor opção.

Espero que tenham gostado e até a próxima!

assinatura camila